Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2012

NÃO PODEMOS VER O VENTO (cap. 06) - Fim

 

 

 

Mariana recorda o blogue, recorda as fotos do jovem militar, recorda os relatos pormenorizados das missões, recorda a linguagem e a simbologia, e tenta entender.

 

Álvaro, escreve ela. A mim parece-me evidente que o Álvaro tem um grande orgulho em ter sido GE. Quer falar-me nisso?

 

Era o que a psicóloga menos esperava, mas Álvaro demorou quinze dias a responder-lhe. Mariana chegou a telefonar--lhe, a perguntar se estava tudo bem, e ele foi, como sempre, extremamente simpático — mas insistiu que a questão do orgulho era muito delicada, e que precisava de tempo para pensar. Quando, finalmente, deu sinais de vida, não podia ter sido mais lacónico.

Quanto à questão que me colocou sobre o meu orgulho em ter servido o nosso Exército, tenho a dizer que não sinto orgulho nenhum nisso, a não ser no facto de ter recebido 63 negros, em que a maioria não falava português, falavam o seu dialeto ou o inglês, e conseguir, em cinco meses, que falassem o português: esse feito, para mim, constituiu um grande motivo de orgulho. Sabe, no meu Grupo havia cerca de meia dúzia de instruendos que tinham estado em missões católicas e que falavam bem a língua portuguesa; e foi através deles que consegui fazer-me compreender. No fim da instrução tinha toda a gente a entender o português, e a maioria a falá-lo fluentemente.

 

 

Outro motivo de orgulho era, no fim de cada mês, pagar-lhes o vencimento, o que, como deve calcular, era um dia de festa. Estes militares tinham um vencimento idêntico às tropas do exército normal português, o que para um negro representava muito dinheiro. A sua felicidade era terem um rádio, uns óculos de sol e uma arma. Ora, tudo isso lhes era proporcionado com o dinheiro que ganhavam. Portanto, quando chegava o dia do pagamento, eu via neles verdadeira felicidade, porque conseguiam comprar aquilo que ambicionavam. Claro, certas situações eram problemáticas. Havia alguns que se excediam com aquelas bebidas alcoólicas que só eles sabiam fazer, mas nunca castiguei nenhum nesse dia. Eles que se desforrassem, coitados. A nossa vida era tão dura. No dia seguinte, no entanto, costumava massacrá-los com exercícios físicos até à exaustão. Desta forma fui combatendo o abuso daquelas bebedeiras destemperadas, porque, como deve calcular, não podiam coexistir com o clima da guerra. Não éramos, propriamente, um bando de mercenários. Ou eu, pelo menos, nunca deixei que fôssemos.

 

Mas digo-lhe, Mariana, com toda a franqueza: o meu maior orgulho foi passar aquela guerra sem sofrer qualquer baixa entre os meus homens.

 

Mariana conhece o blogue bem demais. Talvez seja verdade que Álvaro, que ao contrário dos outros não foi voluntário, ao contrário dos outros talvez não tenha mesmo orgulho em ter sido GE. Mas é visível, por todo o material das suas postagens, que continua extremamente ligado a Moçambique e que segue de perto os acontecimentos mais ocultos do país onde combateu. Porquê?

 

O homem de Ovar responde sem uma hesitação.

 

Olá Mariana. Quanto à sua última questão, quero dizer-lhe que adoro aquele país e tenho uma imensa pena que seja tão mal governado, porque, apesar de tudo, é um país rico, não só em belezas naturais, que conheci muito bem, como na sua expressão agrícola e florestal, mal explorada e vítima da roubalheira. Sou antifrelimista convicto, por isso, defendo uma nova forma política para aquele Moçambique tão belo e de uma gente tão extraordinária.

 

 

Não Podemos ver o vento

Clara Pinto Correia

 

Ovar, 12 de Dezembro de 2012

Álvaro Teixeira (GE)

 

 


Publicado por gruposespeciais às 14:13
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3 COMENTÁRIOS:
De Eduardo Simões a 3 de Junho de 2013 às 16:58
Este Sr. Álvaro Teixeira é um psicopata, pena é que os 63 soldados negros não possam testemunhar do que vem relatando. Estive no Niassa Candulo, em Manica e Sofala Vila Gouveia, no aldeamento de Pandira, com o furriel Ribeiro cuja missão seria supostamente dar proteção a obras a cargo da Junta Autónoma de Estradas de Moçambique, no Fúdeze, e em Nhapassa onde construí o aquartelamento, e recolhi a população e na data 7 2 1974 estava estacionado em Nhassacara aquartelamento que ficava mais perto do Guro.
Pertencia á C. Art..3557 e chamo-me Simões. O contraditório é importante e necessário para manter a verdade, mais atenção.


De gruposespeciais a 3 de Junho de 2013 às 21:56
Não conheço este Eduardo Simões, nem tenho qualquer prazer em conhecê-lo. Quanto ao facto de me chamar psicopata, acho que deve ser um problema mental seu, porque não deve ter qualquer capacidade para avaliar os outros de acordo com os seus parâmetros. Se calhar, deveria colocar um espelho à sua frente e avaliar a sua psicopatia.
Devo dizer-lhe que falta tanto à verdade, porque o destacamento que ficava mais perto do Guro era o de Nhapassa, por o de Nhassacara ficava a sul do Fúdze.
Essa sua cabeça deve precisar de um tratamento.
Deve andar a imaginar coisas que nunca se passaram a não ser na sua imaginação.
Veja se não precisa de um tratamento de psicopatia. Talvez lhe faça bem, para deixar de imaginar coisas que só lhe passam pela sua cabeça.



De Carlos Ribeiro a 4 de Junho de 2013 às 22:27
Alvaro Teixeira, o destacamento que ficava mais perto do Guro era o de Nhassacara. O destacamento de Nhapassa ficava a sul do Fúdze em direção a Vila Gouveia.
O Eduardo Simões comandava o destacamento de Nhapassa...


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