Quarta-feira, 22 de Abril de 2009

OLIVENÇA - Niassa - Moçambique (2)

 
(…continuação)
Depois de o Subtil ter levantado voo, fomos para o aquartelamento e entregaram-me um “quarto”, com duas camas, uma das quais era do furriel Cerejeira, onde deixei a minha bagagem. Fui à Secretaria cumprir as formalidades da apresentação ao capitão da unidade, cujo nome não recordo, mas sei que era de Vila Nova de Tázem. O 1º. Sargento Rego descreveu-me, por alto, o que era a vida em Olivença: operações no mato, umas com a duração de três dias (patrulhamentos com um pelotão) e outras de sete dias, com dois ou três pelotões, para as zonas de infiltração dos guerrilheiros da Frelimo. O tempo que se passava no aquartelamento era reservado às rotinas habituais e um dos únicos entretimentos era os jogos de cartas. Disse-lhe que não sabia jogar às cartas (lerpa, king, abafa, póquer), nem a brincar, nem a dinheiro, mas que pagava para aprender. E assim foi. Durante os sete dias que passei no aquartelamento, antes da minha primeira saída para o mato, gastei todo o dinheiro que levava (cerca 12 contos), mas aprendi a jogar à lerpa.
Em 19 de Outubro de 1972 fiz a minha estreia no mato. Uma operação de 3 dias para a zona do rio Chitope com meu pelotão, sendo eu o único graduado, já que o furriel Rosa, como já tinha a rendição assegurada, não saiu mais do aquartelamento. Depois de percorridos vários quilómetros, paramos para almoçar. Aproveitei o tempo para me inteirar, junto dos soldados, dos mais diversos pormenores sobre o terreno que pisava. Disseram que os contactos com guerrilheiros eram muito raros, não havia perigo de minas, porque não havia trilhos e, de certa forma puseram-me mais à vontade. Acabado o almoço e o tempo de descanso, voltamos à caminhada, com muito calor e muita humidade, factores que não ajudavam nada na progressão, mas lá me aguentei até ao fim da tarde. Arranjamos um local para pernoitar. Quando a noite já esta a cair, acerca-se de mim um 1º. Cabo que me diz: “Oh nosso furriel, nós não costumámos andar, assim, tanto neste tipo de operações. Afastámo-nos uns quilómetros do quartel e acampamos”. O dia seguinte foi passado por ali. No início do terceiro dia, recebo ordens do alferes Catalão, que estava a comandar a unidade, por ausência do capitão em Vila Cabral.
Foi a minha primeira experiência no mato. Não consegui dormir durante as 2 noites, porque o silêncio era muito ruidoso, o medo de um golpe de mão, os répteis, os animais selvagens eram motivos para um grande pavor.
Chegamos ao aquartelamento ainda a horas para o almoço. A ementa era esparguete com carne liofilizada, um horror. Provei, mas preferi comer o que restava da ração de combate.
A partir dessa altura passei a saber o calendário de operações que contemplavam, pelo menos a cada pelotão, entre 13 a 17 dias no mato, não seguidos. A quantidade de dias no mato dependia do número de operações de 7 dias que éramos obrigados a fazer durante um mês. Depois da primeira operação, deixei de ir na conversa dos “velhinhos” e passei a cumprir os objectivos de cada missão que comandasse e que eram, normalmente, para Norte ou Oeste de Olivença.
As operações de 7 dias que fiz foram, sempre, para Este e Nordeste de Olivença e eram compostas por 2 ou 3 pelotões. A travessia do rio Messinge, um rio caudaloso e profundo, afluente do Rovuma, era feita num bote de borracha, cujo transporte era assegurado por 2 Secções que se encarregavam de o levar e trazer. O objectivo era chegar às linhas de infiltração da Frelimo, mas os seus guerrilheiros evitavam, sempre, o contacto com as N.T (Nossas Tropas) e tinham facilidade para o fazer, já que a nossa área de cobertura era muito extensa (basta dizer que o aquartelamento mais próximo era Pauíla, que distava de Olivença, cerca de 230 Kms.). Por outro lado interessava à Frelimo assegurar o abastecimento das suas bases avançadas com o mínimo de baixas possível e a localização das N.T. tornava-se fácil, uma vez que, ao 3º. /4º. dia, éramos reabastecidos por helicóptero, o que denunciava, logo, as nossa movimentações. As distâncias a percorrer, a quase inexistente informação e a falta de qualquer apoio aéreo, tornava o nosso esforço numa inutilidade.
Lembro que, a poucos quilómetros da fronteira, mas já bem dentro da Tanzânia, a Frelimo possuía uma base de reabastecimento das suas bases no Niassa, situada na localidade de Mitomoni e que permitia a passagem desses reabastecimentos pela zona compreendida entre Olivença e Pauíla ou Olivença e o Cóbue, tais as distâncias a que ficava Olivença desses aquartelamentos.
Neste contexto, não era difícil à Frelimo mostrar aos observadores internacionais as ditas “áreas libertadas”, cuja população não seria mais do que carregadores da Frelimo e de alguns guerrilheiros, mas que eram difíceis de detectar por observação aérea, dado situarem-se em zonas densamente arborizadas e muito afastadas, como é óbvio, dos escassos aquartelamentos situados naquela zona. Toda essa história das “áreas libertadas” não passava de pura encenação da Frelimo, mas que “convenciam” a comunicação social, principalmente, a dos países nórdicos e a dos blocos comunistas russos e chineses.
Em Olivença, a vida era de tranquilidade, a população sentia-se segura e era normal a sua convivência com as N.T.. O apoio que lhes dávamos era o possível, dentro das condições de quase isolamento em que vivíamos, dado que todo o abastecimento de Olivença era feito por via aérea.
A única quebra dessa tranquilidade ocorreu no dia de Natal de 1972, quando o nosso capitão resolveu oferecer um porco enorme para a celebração da data e, como era dia de festa, surgiram os excessos, o estado de embriaguez que se apossou de alguns, provocado por uma bebida feira à base de milho fermentado e que descambou numa luta campal, com tiros à mistura.
Alguns de nós estávamos a jogar à “lerpa” no meu quarto e, quando nos apercebemos do que se estava a passar, procuramos intervir para acalmar toda a gente, o que se conseguiu, passado pouco tempo. Desta situação resultaram alguns ferimentos, mas nada de grave, e tudo voltou à normalidade.
 
(Continua …)

Publicado por gruposespeciais às 16:37
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