Sexta-feira, 4 de Setembro de 2009

MINHA VIDA DE GE – Parte 5

 

 

 

(… Continuação)
Começamos a instrução dos militares, praticamente, a partir do zero o que, de certo modo, facilitou o nosso trabalho, pelo menos na parte que me disse respeito. Os novos recrutas vinham de aldeias distantes, dispersas pela Serra Choa, onde, poucos meses antes, a Frelimo tinha aberto um corredor de infiltração em direcção a Manica com todo o cortejo de desgraças que isso provocou nas populações que não aderiram ao Movimento de Libertação, obrigando-as a refugiarem-se em povoações mais próximas da estrada que liga o Vandúzi a Tete e que seriam alojadas nos aldeamentos de Nhassacara, Fúdze, Nhampassa e outros que foram sendo construídos ao longo da referida estrutura rodoviária e por onde passava todo o material necessário à construção da Barragem de Cahora Bassa com a consequente segurança, não só do ponto de vista psicológico, como militar, que todo este movimento dava às referidas populações.
O cortejo de desgraças a que acima me refiro e que irei descrever em artigos seguintes, além de me terem sido relatados pela próprias populações, verifiquei-os no próprio terreno e foram-me confirmados, há bem pouco tempo, pelo ex-Comandante da Frelimo, cujo nome, para já, não estou autorizado a divulgar e que foi o responsável pela instalação da Frelimo ao longo de toda a zona a sul de Tete, incluindo a Serra Choa. Os Moçambicanos desse tempo conhecem-no muito bem e os altos responsáveis da Frelimo sabem de quem estou a falar, porque lhe coube a glória de ser o primeiro guerrilheiro da Frelimo a atravessar a fronteira psicológica que constituía o Rio Zambeze.
Mas voltando ao Dondo e ao CIGE e à estaca zero, é importante referir que uma grande parte dos recrutas não falava português, havendo uma grande percentagem que falava inglês, porque trabalharam alguns anos na ex-Rodésia, hoje Zimbábué e que fugiram das guerras que se travavam junto à fronteira, das ZANU do Robert Mugabe contra o regime de Ian Smith e da Frelimo, contra o regime colonial português. Como não conhecia uma única palavra do dialecto local, que era comum a todos, comecei a dar a instrução nas duas línguas, português e inglês o que veio a permitir que, para o fim da instrução, já todos falassem e compreendessem, dentro do necessário, o português. Tive uma grande ajuda de um recruta, o Vasco, o mais culto de todos, que tinha andado a estudar em Vila Gouveia e, à noite, passava uma grande parte do tempo a ensinar a língua portuguesa aos seus companheiros do Grupo.
A instrução incidia em três vertentes: a física, a psicológica e a de combate.
Sobre a vertente física, pouco há dizer, porque eram pessoas bem dotadas fisicamente, pelo que os exercícios serviam mais para uma integração de grupo, coordenação de movimentos e de adaptação à arma, a fim de que ela se tornasse como uma extensão do próprio corpo.
A vertente psicológica, do meu ponto vista, era a mais importante. Baseei-me muito na informação que cada um possuía, quase todos os recrutas tinham passado por alguma experiência ou tinham conhecimento de acções do “terrorismo” praticadas pela Frelimo, sempre que abria uma nova frente de guerrilha e que consistiam em assassínios dos que não aderiam ao movimento, raptos, essencialmente de mulheres e de roubos de cabeças de gado. Estas acções provocavam o ódio aos “bandidos”, como lhes chamavam e, como cada um, prestava, perante o Grupo, o seu depoimento, este era assimilado por todos, como se dissesse respeito a cada um. Estava lançada a semente para a criação do espírito de grupo e trabalharmos todos estes elementos na parte psicológica, majorando, ainda mais, a necessidade do combate à Frelimo.
A par da vertente psicológica, era ministrada a instrução de combate que passava pela luta corpo a corpo, preparação de emboscadas, reacção a emboscadas, formas de progressão na mata, tiro ao alvo, utilização das granadas, tiro de morteiro, etc. Estes conhecimentos de combate introduzia no Grupo um sensação de segurança, cuja evolução de notava de dia para dia, aliada ao facto de que, ao possuírem uma arma, lhes aumentava a auto-estima e o sentimento de vingança.
 
GE´s - Moçambique "máquinas de guerra" (foto do JN de 15/02/1996)
Por estes motivos é que os GE´s eram considerados como “autênticas máquinas de guerra”, muito temidos pela Frelimo, porque estávamos a operar nos mesmos terrenos.
 
(continua…)
Ovar, 4 de Setembro de 2009    
 Álvaro Teixeira (GE)

 


Publicado por gruposespeciais às 14:27
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10 COMENTÁRIOS:
De Francisco Dores a 4 de Setembro de 2009 às 22:25
Fugiam da Frelimo, Zanu e também da Zapu de Nkono,que fez parte do 1º governo da Zanu e assassinado pelo Robert Mugabe e sus muchachos.

O principal problema na estrada Chimoio(Vila Pery/Cabora Bassa), situava-se na Macossa( que dava entrada directa na Gorongosa, e que foi aqui que a PORCA TORCEU O RABO), onde a Frelimo nos criava muitos problemas, nomeadamente emboscadas às Cargas Críticas.

Depois de por aqui passar ia-se relativamente em paz até ao Km19 (cruzamento Tete-Cabora Bassa).

Chamo a atenção que escrevo Cabora e não Cahora(dialecto local).

Fico à espera de mais estórias.

Um abraço

Francisco Dores



De gruposespeciais a 10 de Setembro de 2009 às 21:23
Caro Francisco Dores,
Necessito, com urgência, do teu mail. Se mo puderes enviar, agradeço.
Um abraço
Álvaro Teixeira


De CR a 7 de Fevereiro de 2011 às 21:30
Caro Francisco Dores,
O que tem a haver a estrada da Macossa com a estrada de Vila Pery, passando por Gimo, Vanduzi, Ponte do Pungué, Honde, Vila Gouveia, Guro, Tete e Cahora Bassa?? Por esta estrada passaram realmente as cargas críticas para a barragem de "Cabora Bassa".
Agora, do Fudze até à Macossa, "MUITO PÓ" e algumas emboscadas, o soldado Rocha, de Setúbal, tem num dos ombros a prova do que digo.
Cordialmente,
CR


De Francisco Dores a 9 de Fevereiro de 2011 às 17:56
Caro CR :

Em resposta ao seu comentário tenho a referir o seguinte :

Vindo de Chimoio (Vila Pery) e antes de chegar ao Guro, virava-se à direita para a Macossa, que fica no Distrito de Manica.
O que eu disse tinha a ver com um Ex-GE que tinha estado na Macossa e mais tarde comandou um GE no Mongué (Zambézia) que eu a seguir comandei.
Só que eu estive na fronteira da Rodésia (Mocumbura) e sabia que a linha de infiltração da Frelimo era pela Macossa, para chegarem à Gorongoza, o que veio a acontecer.
Quanto às cargas criticas, isso é outra conversa.
Um abraço
e sempre ao dispor

Francisco Dores


De Eduardo Simões a 4 de Junho de 2013 às 05:57

Caro CR

O meu amigo sabe do que fala, fez bem em corrigir o Francisco Dores
Dizem, e depois.não foi isso
Só a verdade é revolucionária.
É só aprendizes de feiticeiro.

cumprimentos

Simões


De Narciso Gaitinha a 16 de Maio de 2010 às 11:18
Fico feliz pela publicação desta fotografia de alguns dos soldados do GE 101 que tive a honra de comandar. Bem haja!
Narciso Gaitinha


De Mascarenhas a 10 de Agosto de 2010 às 15:51
Caro Gaitinhas
Se o meu Amigo foi comandante do GE 101 terá ido para Nova Coimbra render o Big One ?
Um abraço
Manuel Mascarenhas


De Narciso Gaitinha a 10 de Agosto de 2010 às 19:08
Exactamente e ... não exactamente! Eu explico:
Quando o Biguane foi ferido, o Capitão Adrega procurou-me em Maúa para saber se queria ir comandar o 101. Entre a saída do Biguane (que foi para os GEP's após o ferimento) e a minha chegada ao 101, o grupo foi comandado «interinamente» pelo furriel mais graduado, Almeida e pelo Louro «emprestado» pelo 102. Estive com o Biguane no Dondo.
Um grande abraço de fraternidade GE!
Gaitinha


De Simões a 21 de Outubro de 2013 às 01:38

20/10/2013

fui consultar a m/ caderneta militar, pensando que nela havia alguma referência à minha ida para Vila Gouveia, nada consta dos locais por onde me mandaram dentro de Moçambique, curiosamente embarquei no dia 11 de abril de1972 nos aviões da TAM em Lisboa com destino à RMM , tendo desembarcado na Beira em 18 de abril , passou a contar 100%. Viagem demorada no avião militar no regresso saí da Beira no dia 30 de junho de 1974 e cheguei a lisboa no dia 1 de julho , muito mais rápido no obstante de ser a subir!!!
Esta minha curiosidade prende-se com o fato de na madrugada do dia 22 de Janeiro de 1973, de regresso de Manica, onde eu e o Furr . Fernando Reis tínhamos ido passar o fim de semana, fomos e viemos de boleia numa viatura da TLC (empresa italiana que andava a colocar os cabos de alta tensão) e que tinham um estaleiro perto da vila de Manica, recordo-me da data pelo fato de ter ouvido no rádio da viatura a noticia do assassinato de Amílcar Cabral. Devia estar à pouco tempo em Vila Gouveia em virtude de ter ido não "desenfiado" mas legalmente e à civil, as informações que havia era que aquela zona era ainda 50%. e na realidade
durante algum tempo ainda foram férias. Em Nhampassa não havia aldeamento, só havia uma escola mandada construir por um tal Ibraimo , só mais tarde devido à infiltração da Frelimo foi criado o aldeamento a casa do polícia e o depósito de água penso que era o aldeamento MODELO que não se repetiu, No Fúdze só havia a cantina ainda me recordo de ter movimento e haver muitos sacos de girassol debaixo do alpendre, até ao Guro não havia nada junto à estrada, exceto talvez uma farma " (pequena quinta) do lado esquerdo pouco antes de chegar ao Guro pois mais do que uma vez vi sair uma viatura que circulava sem protecção , isto é, não se incorporava na coluna militar, fui informado por militares da C. Caç de Vila Gouveia que esse pessoal jogava nos dois lados, Nhassacara partiu do zero. Para baixo de Nhampassa até Vila
Gouveia havia uma Missão do lado direito que não recordo o nome, ficava um pouco para dentro e havia freiras, conheci muito bem a irmã Filomena pois uma vez por semana vinha a Nhampassa dar assistência em enfermagem à população. vinha de manhã com a coluna , e voltava ao fim do dia com o regresso da coluna era sempre minha convidada para almoçar, como fazia dieta mandava preparar pescada congelada cozida com batatas e legumes da horta., Eu era o seu grande fornecedor de medicamentos principalmente resoquina " ( quinino contra o paludismo). É verdade eu tinha muitos medicamentos e também munições, principalmente morteiros. Durante alguns meses ficaram estacionados no aldeamento várias Comp . de Comandos , que no final me davam todos os medicamentos com que eu fazia a psico , acho que cheguei a praticar medicina ilegal, mas, como dizia, se não voltam é porque ficaram curados....ou então não fui a tempo. As vezes tinha que administrar penicilinas e ficava com receio de rejeição , embora a irmã Filomena me tivesse dito que nunca tinha encontrado nenhum africano com alergia à mesma, pelo sim pelo não tinha sempre à mão uma injecção de um antialergénico preparado, chegava a fornecer a enfermaria do Fúdze quando havia falta, cheguei a aplicar injecções de vitamina K, usado para coagular o sangue, quando o funcionário africano da cantina, pelo cair da noite foi visitado por elementos da Frelimo, e o alvejaram nas pernas, parece que ele merecia pois era pouco honesto nas trocas, podia ter sido morto, só o não foi porque a Frelimo não matava pessoas indefesas, a sua luta era de desgaste.
A criação de aldeamentos, tinha como objectivo retirar à Frelimo o contacto com as populações, segundo Mao Zedong "a população é para o guerrilheiro como a água é para o peixe" é o seu meio. É falso que as populações vieram para os aldeamentos com medo dos bandidos da Frelimo e pediam a protecção da nossa bandeira, isto são histórias do livro da 2ºclasse , penso que nem o Sr. Teixeira, acredita nesta mentira, aliás não há relato de nenhum massacre quer colectivo quer individual das populações nesta zona, perpetrado pela Frelimo poderá haver casos de ajuste de contas como foi o caso do cantineiro de Nhassacara , eu próprio já tinha recebido queixas dos milícias que o homem não era honesto.


De António a 3 de Dezembro de 2015 às 16:35
Cheguei ao Mavonde com o meu Grupo de Flechas e a situação não podia ser pior, o Alferes e o Furriel, ambos de raça branca estavam mesmo mal, só podia dormir um de cada vez para fazerem segurança mútuo.
Ali anbandonados e longe de tudo, com um Administrador de Posto com ideias de esquerda, sabe-se bem porquê; foram sempre os maiores sacanas para a população autótene, passava o dia a cantar o Grândola Vila Morena.
Todos os dias desertavam soldados GE levando as armas e demais equipamentos.
O Brigadeiro do CTC de Vila Pery, pediu ao meu Comandante para enviar para ali um Grupo a fim de aliviar a pressão da FRELIMO sobre aquela zona, os GE tinham perdido a iniciativa e os militares de Manica recusavam-se a combater, restávamos nós.
E lá fomos para aquele buraco para fazer uma Operação de 3 dias, mas quais 3 dias, comemos a nossa ração e ainda comemos a ração dos GE com a promessa de que o reabastecimento vinha a caminho.
Os 60 homens passaram 8 dias aos tiros aos FRELIMOS que tinham a mania que aquilo era deles.
Resgatamos centenas de elementos da Pop. Civil para desgraça do pobre de espírito do Administrador que não tinha que lhes dar de comer.
Finalmente pusemos pernas ao caminho com um trator e um atrelado para ver o que se passava com o famigerado reabastecimento e lá encontramos a berliet atascada e troxemos tudo para o Mavonde.
Ao nono dia a situação estava mais calma, despedi-me dos GE,s e o sem vergonha do Administrador quase que chorava a pedir-me para não abandonar a Povoação e disse-lhe para ele ir para a outra banda e palmilhámos os cerca de 80 Km até ao Largo da Ponte do Pungwe com ideias de ir para Vila Gouveia, mas nos deixaram ir e mandaram-nos camiões para nos transportar para Vila Pery. Um abraço combatente.


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